quarta-feira, junho 15, 2005

play it, Sam.





"Play it, Sam. You played it for her, you can play it for me. Play, "Ink-a-dink-a-doo!" ´

Ha duas semanas todos os quarentões estavam diante do televisor para rever Casablanca. Mas não se trata de um normal fenómeno de nostalgia. De facto, quando Casablanca é projectado nas universidades americanas, os jovens de vinte anos sublinham todas as passagens e todas as frases canónicas (..mandem prender as suspeitos do costume., ou são os canhões ou e o meu coração que bate?., ou todas as vezes que Bogey diz «kid».) com ovações habitualmente reservadas aos desafios de basebol. O mesmo me aconteceu ver numa cinemateca italiana frequentada por jovens. Qual a então o fascínio de Casa­blanca?
A pergunta é legitima. porque Casablanca é, esteticamente falando (ou melhor, do ponto de vista de uma crítica exigente), um modestíssimo filme. Fotonovela, pastelão, onde a verosimilhança psicol6gica é muito débil, os golpes de teatro se encadeiam sem razões atendíveis. E também sabemos porquê: o filme foi pensado à medida que ia sendo rodado, e até ao ultimo momento o realizador e os encenadores não sabiam se Ilse partiria com Victor ou com Rick. Portanto, aquilo que parecem astutos achados de realização e arrancam o aplauso pela sua inopinada desfaçatez são, com efeito, decisões tomadas por desespero. E então: como podia sair, desta cadeia de imprevidências, um filme que ainda hoje, revisto pela segunda, terceira ou quarta vez, arranca o aplauso devido no morceau de bravoure, que se gosta de ouvir bisar, ou o entusiasmo devido a descoberta inédita? É um cast de convenci­dos formidáveis. Mas não basta.
São ele e ela, amargo ele e terna ela, românticos, mas já se tinha visto melhor. (Eco, 1986, p.199)

Umberto Eco. Viagem na Irrealidade Quotidiana

2 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

O livro é basante bom, também o tenho. Mas neste ponto discordo numa coisa: não me parece que tenham sido tomadas de decisão em desespero, mas sim opções quotidianas propositadas que acabaram por abrilhantar o filme.

Cumps.

10:51 da tarde  
Blogger trutasalmonada disse...

gostei da liberdade de opinião...parece que é uma questão de perspectiva, eu ainda não me quero manifestar sobre esta em concreto

obrigada, bj

10:33 da manhã  

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