sábado, setembro 25, 2004

Contemplação

Falava com meu pai enquanto ele aguardava na sala de espera da cirurgia II, para uma leve intervenção cirúrgica. Procurávamos entreter-nos para que o tempo de espera, e aquilo por esperávamos, fosse pesando como 1Kg de algodão em vez de 1Kg de chumbo. Quando na minha boca afloraram palavras que eu própria estranhava, entre estas a paciência assumia a liderança, apanágio da vida de meu pai neste Verão tão indefinido.
Às minhas palavras calmamente responde meu pai, tão fiel a ele próprio, como pessoa que remói as suas próprias interpretações até que elas se fundam com a sua pele, seus olhos, ouvidos, nariz e boca. Assim, com uma simplicidade desconcertante que o caracteriza, ele surpreende-me com 3 verdades simples e certeiras, dizendo que há três características essenciais à condição humana desfia a paciência, humildade e observação. Senti-me tão agraciada com esta partilha, tão nova e verdadeira como o nascer do sol que todos os dias nos reinicia o prazer de o vivenciar com todo o seu esplendor , numa repetição com o fulgor da primeira vez.
Ripostei com o meu acordo e acrescentei que à observação eu redefiniria e preferia a contemplação.
Assim derivei e deambulei pelo fascínio que me provoca essa acção, exteriormente pouco activa, que antevejo e almejo mais amiúde.
A possibilidade de me embriagar com o desenrolar dos acontecimentos naturais, do sentir, cheirar e ouvir um rio nos seus desafios diários, o céu nos seus preparativos festivos de cor e forma, as flores no seu requintado desfile, as árvores no seu respirar continuamente silencioso e generoso, os humanos nos seus trejeitos apressados com rostos sofridos levando pela mão crianças que procuram parar o tempo para crescer sem que a gravidade lhes tolha o movimento de ascensão.
Quando se contempla tudo dentro de nós se acelera e se lentifica, num processo paradoxal de redução de estímulos exteriores invasivos e aumento de estímulos necessitados, acolhidos e laborados, numa calma sem atropelos, que se desenlaça por etapas ansiadamente significativas, para a construção que é cada um de nós.
Contemplar é um dos verbos que deveria ser ambicionado como parte das nossas acções diárias, pela naturalidade que isso implica, sem elaborações estrategicamente definidas, cientificamente planeadas, sem artefactos nem apetrechos. Neste acto bastamo-nos enquanto seres vivos parte de um todo que é o universo, em que nos basta simplesmente estar e olhar à nossa volta para que um tumulto de pensar e sentir aconteça, dentro dos limites que nos separam e distinguem do todo de que somos parte integrante, para nos fundirmos na harmonia da composição desta existência espácio-temporal.

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