segunda-feira, junho 27, 2011

Confecção dos afectos #3#

foto ff (Paris 2011)

Ficou em carne viva, sem pele que a cobrisse. No dia seguinte usou água da chuva para se lavar, alívio por instante, ardor constante; doía o ar, doía o movimento, doía olhar e ser olhada, doía articular, doía pensar, doía calar, doía esquecer, doía tocar, doía sentir. No mês seguinte quis vestir outro fato pré-fabricado, todo ele era demasiado algo, pequeno grande macio, duro, espesso, fino... No ano seguinte, e no seguinte, e no seguinte... continuava despida, com frio, fome e sede, ardia-lhe sorrir, era como arreganhar os dentes. Via lanugem e ficava de olho húmido, via braços fortes e rostos duros de luta com a terra e sentia que lhe fugiam para cada vez mais longe... tudo ficava numa terra distante, outra e outra e outra, ficou na ilha de si consigo mesma, como num Olimpo inócuo, como um Deus que é todos numa solidão de heterónimos, todos derreados, como pessoanos fracassados.

Etiquetas:

domingo, junho 26, 2011

Confecção dos afectos #2#

foto ff (Paris 2011)



Nem uma gota de sangue se desperdiçava, apesar das feridas que dentro deflagrava. Torciam-se-lhe os pulmões, levavam os rins atrás numa dança desenfreada, vinha o coração e gritava até silenciar, os intestinos tamborilavam sons da Amazónia, os ossos faziam estalidos e a pele rangia... nada se derramava nem infiltrava. Era estanque, hermética como uma impenetrável cela de aço. Por vezes abria-se uma pequena fresta onde assomava uma goela aberta silenciosa - qual grito de Munch, que logo era violentamente recolhida. Dias, e dias, e dias, e dias... dias, um abalo na válvula mitral, onda após onda, propaga-se p'los a aurículos e ventrículos, irradiando-se deste músculo para as esponjosas cavidades alveolares e contiguamente vibra como um vulcão em urgência de zona de erupção, todos orifícios são convocados e invocados, começam a ceder; e, como um cristal, o fato em poucos suspiros desfaz-se em incontáveis e irrecuperáveis pedaços.

Etiquetas:

Confecção dos afectos #1#



foto ff (Paris 2011)


Era como um fato invisível tecido pelos fios de cabelo, primeiro de lanugem com os seus que se renovam cada dia, do corte aparador e do pentear que os solta como que para o ninho dos afectos. Misturavam-se-lhe os fios do pensamento em que se pensavam porque existiam um para outro e para existirem, mais o dourado pó dos sonhos do olhar que a projectavam no futuro. Por fim o som das gargalhadas e o movimento de balançar-se na sua perna direita alojam-se nos entrelaçados do fato afecto feito à medida para se ousar por esse mundo de amor e medo, mimo e desafio, ameaça e concretização, crueza e bondade. Foi vaidosa e confiante guardando seu fato de amor como quem guarda a alma, estava-lhe colada com suavidade dentro e a dureza fora. Não mais o despiu, nem um só pedaço, nunca outro se atreveu a vestir. Meticulosamente tratava-o para que se mantivesse como novo, renovado e brilhante; sempre ele, sempre o velho com aspecto contemporâneo. Pavoneou-se a cores e a preto e branco, exibiu-se em latim e germânico, sempre fiel a si e à sua pele de afectos como um elo umbilical.

Etiquetas:

o fado dos que têm mais que um neurónio irrequieto

foto ff (Paris 2011)

Etiquetas:

domingo, fevereiro 06, 2011

sou...

...de facto...

foto ff



...memorável

Etiquetas:

domingo, novembro 14, 2010

hádiasemquemesintoassim...

foto ff

...comohojequentecoradaenrubescidaenvergonhadaousadadistintaisoladaembelezadaapaixonadaeprontaabalançarnalua

Etiquetas: , ,

sexta-feira, dezembro 11, 2009


foto ff


humedeço-me [musgo translúcido e gaiteiro] espelho-me [sem reflexo cega de mim] sarcófago-me [peito mumificado alvura de gaze] luva em mim [desimpressões assépticas] corpo de mim [sacrifícios imaculados de dor]

[-----assoalho a epiderme na esperança germicida]
.
.
.
.
.

Etiquetas: , , , ,