sábado, março 28, 2009

foto ff

"Por volta das seis horas da manhã, constituiu uma experiência notável vermos o que se passa na rua principal da aldeia. É sempre uma hora de grande movimento. Apressados, os homens saem da cama das suas amantes e regressam rapidamente ao local a que verdadeiramente pertencem: a casa da mães." (Coler, p.173)

in O reino das mulheres - o último matriarcado de Ricardo Coler

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segunda-feira, janeiro 26, 2009

"


Do documentário Southern Comfort, filmado durante a última primavera de Robert Eads. Nasceu no interior da América, com um corpo feminino. Só na meia-idade começou a transição, depois de se mudar para a Flórida. Os médicos acharam que, por causa da idade, Eads não precisava de remover o útero ou ovários, e ficou-se pela terapia hormonal e mastectomia. Casou-se com uma psicóloga, mas acabou por voltar para a Geórgia quando o relacionamento chegou ao fim.


Numa tarde de 1996, Eads teve um episódio agudo de dores abdominais. Nas urgências, descobriram-lhe um cancro nos ovários. Quando se dirigiu ao primeiro médico, foi com choque e surpresa que se viu recusado: o oncologista negou-se a seguí-lo, achando que lhe traria "má reputação" e perda de clientes. Depois dele, mais vinte e quatro médicos lhe negaram assistência, pelo mesmo motivo, ou crenças religiosas, ou outros.


Só em 1997 é que Eads teve acesso a cuidados médicos. Apesar de várias cirurgias e radioterapia intensa, o cancro, que já se tinha metastizado para o resto do abdómen, acabou por o matar. Morreu em Janeiro de 1999, com 53 anos de idade.

No ano anterior, durante a Southern Comfort Conference, um evento anual destinado à comunidade transsexual do sudeste americano, uma pequena equipa de filmagens seguiu a última primavera de Eads. No excerto, já sabendo que não tinha muito tempo, ele fala do que sente pelos médicos que ajudaram a precipitar a sua morte. E não é ódio que Robert tem dentro dele..." siona


Como é possível? Como ficar indiferente a uma actuação destas? Não é isto negligência, preconceito certificado, poder agonizante de quem pode fazer a diferença entre a vida e a morte?

Pois:

Decidir...
Nem em Medicina nem em Bioética é possível decidir com absoluta certeza. Chegamos apenas ao provável. Cabe actuar com prudência. Devemos aprender a tomar decisões incertas, mas racionais. Os médicos de família, devem evoluir de uma atitude paternalista, que é a tradicional, para uma postura que respeite a pessoa livre do doente, com base nos princípios éticos implicados narelação médico-doente. (3)
O conjunto de princípios idealizados por Beauchamp e Childress (4), respeito pela autonomia, beneficência, não maleficência e justiça; a que se adicionou a vulnerabilidade consagrada por Kemp e Rendtorff (5), trouxe um referencial de importância considerável para a Bioética. Não sendo tidos como absolutos, estes princípios são aceites como orientadores da decisão em questões éticas na prática clínica. (6)
Autonomia - respeito pela legítima autonomia das pessoas, pelas suas escolhas e decisões que sejam verdadeiramente autónomas e livres (sem qualquer tipo de coacção externa).
Beneficência - promover positivamente o bem do doente.
Não maleficência «Primum non nocere» - ter sempre em mente a obrigação de não fazer mal a outrem (não prejudicar o doente).
Justiça - considerar que todos os Homens são iguais em direitos e na justa distribuição de recursos da sociedade (cuidados de saúde).
Vulnerabilidade - constatar que algumas pessoas (deficientes mentais, doentes em coma, crianças, etc.) estão particularmente fragilizadas ao ponto da sua integridade física ou psicológica estar ameaçada.
Beauchamp e Childress referiram que só examinando os princípios éticos, e determinando em que medida esses princípios se aplicam individualmente, podemos ter uma verdadeira resolução dos problemas. (4)
(…)
A ética não pretende ser um manual de comportamento, mas é um saber necessário e conveniente. A prudência, a maturidade de espírito, a honestidade, uma sólida formação humanística e uma atitude crítica e pensada perante os nossos actos são imprescindíveis para uma medicina eticamente válida. Com certeza não é preciso lembrar que para além de qualquer outro interesse está a saúde e o bem-estar dos nossos doentes, que nos escolheram, e ao serviço dos quais nós escolhemos livremente estar.”

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quinta-feira, outubro 16, 2008

fotos ff


Fico sempre incomodada e tolhida com as notícias políticas e económicas. Fico tumultuada por dentro, em verdadeira convulsão e emudecida por fora. Como dizer aquilo que parece óbvio, dizer aquilo que me parece anti-humano, anti-direitos do homem e direitos civis?
É necessário dizer a qualquer humano que se não beber água fica com sede? Que se não comer morre à fome? Que se não defecar fica intoxicado? Que se não formos cuidados e amados definhamos física e emocionalmente? Assim me parecem a maioria das intervenções sócio-políticas e económicas, evidentes no seu abuso sobre o que é ser-se humano e ser-se responsável por determinações que interferem directa e profundamente naquilo que é viver e com dignidade. Se comer, beber… e amar não são parte essencial dessa garantia de dignidade então fechem instituições, tribunais de menores, misericórdias, casas e famílias de acolhimento e afins porque estamos todos a promover futilidades! Caprichos! Bens dispensáveis!
Só é bem essencial o amor que acontece entre homem e mulher (porque é parte do dito núcleo familiar que compõe as únicas e aceitáveis ‘células’ que compõem a nossa sociedade)? Claro que se aceita o amor entre pessoas do mesmo sexo desde que não amoroso, que mediado por laços de sangue. Mas isso complica-se na adopção e na ‘madrastia/padrastia’, pois temos (pelo menos esperamos ter) amor entre pessoas do mesmo sexo, que não têm laços de sangue e onde um é, em princípio, menor. Então o que o garante é a existência de um casal heterossexual que medeia esse sentimento tornando-o seguro e protegido??!??!!?
Ai está a explicação para que duas pessoas do mesmo sexo não possam oficializar a sua relação amorosa (porque o amor, que todos sabem onde e como se manifesta -deve ter sido por lerem os livro do António Damásio- não se pode manifestar que em sexos ou géneros diferentes – seja lá o que isso do género for, de contrário é uma impossibilidade que todos sabem e conhecem, porque sim, porque é assim) adquirindo direitos sociais e económicos, que lhe permitam uma integração, reconhecimento e participação naquilo que é apanágio de uma democracia (ou será a nossa democracia não mais do que uma outra forma de categorizar os cidadãos de primeira, de segunda, de terceira, …?)?
Continuo sem perceber, serei menos dotada do intelecto do que me pensava? Então quais os motivos para que não se possam celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo? O amor que ai existe é deveras diferente? Diferente de quê? Haverá uma espécie de polígrafo que permita dirigentes e outros com poderes tais afirmar e fundamentar que aquele sentimento é diferente, menos válido, contranatura, pouco desejável, inadequado e recriminável? Argumentos de que depois vem a adopção não são semelhantes a ‘não se lhe pode dar a mão que depois querem todo o braço’? Sendo assim então ficaríamos na pré-história, não fazemos casas porque depois queremos vivendas, não comemos carne cozinhada porque depois queremos cozinha sofisticada, não usamos a roda porque depois queremos asas, não usamos palcos porque depois queremos celebridade, por ai adiante…
Depois o que tem o amor amoroso, de duas pessoas que querem estar juntas, para se mimarem, apoiarem e com desejo sexual, de contraindicado para a proximidade com uma criança? Onde e em quê é prejudicial essa manifestação no desenvolvimento de uma criança? Isso determina e influência (negativamente) a sua orientação sexual? Então se isso é factor determinante no desenvolvimento psicossexual do indivíduo, o convívio com os casais heterossexuais seriam garantia de orientações heterossexuais (logo não haveriam orientações homossexuais em famílias nucleares) e também não haveriam orientações heterossexuais em crianças educadas em contextos exclusivamente femininos ou masculinos (de que são exemplos instituições religiosas onde estes foram criados).
Parece que o que é negado, não oficializado, é como se fosse invisível, inexistente, tal como a criança pequena que o que não vê não existe, o que não vê também não a vê a ela, então parece que estamos perante uma sociedade politicamente infantilizada, onde esconder a realidade do amor entre o mesmo sexo, com uma capa de marginalidade, de não oficializado, faz ingenuamente sentir como se não existisse, se não os virmos eles também não nos vêem. Isso, porque se houver olhos nos olhos fica-se em ‘maus lençóis’.
Então que temem os nossos corajosos dirigentes? Que receiam que possam acontecer nesse ver e/ou ser visto? Que bem essencial pode ser posto em causa na sua estabilidade? Que estabilidade é essa que pode ser abalada pela não negação deste amor? O medo irracional sempre levou o humano a cometer enormes atrocidades, todos temos conhecimento disso, mas parece que não aprendemos, continuamos a fazer os mesmos erros, a fugir e tentar destruir o que não dominamos ou desconhecemos um pouco mais. Que evolução então podemos dizer haver nesta progressão e desenvolvimento? Será de facto que estamos em vias de desenvolvimento ou em vias de desenvolvimento de novas estratégias para impedir o desenvolvimento que não pareça a muitos ambiciosos de poder total ameaçar a sua ditadora acção, coacção e subjugação?

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segunda-feira, abril 14, 2008

from A'Dam with love

quinta-feira, outubro 04, 2007

Vários círculos entrelaçados vestem uma lâmpada acesa e o efeito que produzem no verde da minha parede é docemente hipnotizante. Necessito, como de água e de chocolate, poder evadir-me. Basta de notícias, de imagens que penosamente me ferem o olhar, de ideias desordenadas que me flecham os neurónios demasiado doloridos com a falta de cidadania de muitos, (tantos !), indivíduos ludibriados por necessidades falsamente criadas pela gulosa sociedade moderna onde tudo é tão facilmente descartável e substituível. Hoje disseram-se que uma das “manias” que compõem o meu visual, “até já nem está muito na moda”! Eu que, pronto, enfim, vá lá, gosto do assunto, conheço as tendências dos trapos e acessórios e até me deixo influenciar por algumas, fingi ignorar o comentário da bela mocita que, compreendo, queria convencer-me que no estabelecimento que representava, deveria haver alguma coisa “dentro da moda” que, certamente, iria ao encontro da minha pretensa “necessidade”. Apeteceu-me responder-lhe mas num acto de preguiça argumentativa soltei apenas as palavras no interior da minha cabeça: ainda que não estivesse na moda, eu gostaria. (ponto final!). Vivemos num empenhamento constante em alcançar as últimas modas (do desperdício). Vivemos com o desejo da novidade constante, o desejo do instantâneo. “Necessito, necessito, necessito… Agora!! Necessito?!(será?!) oh! Já me fartei. Deito fora? É melhor. Se não vejo, não penso mais nisso. Não crio remorsos. Viro a página. Destruo. Faço delete. Arranjo outra novidade. Crio outra necessidade, outra paixão”. Nas coisas, assim como no(s) amor(s). Zygmunt Bauman (sociólogo Polaco) designa esta sociedade de líquida. Esta liquidez é transversal a todos os domínios da nossa vida e doentia (acrescento eu). Queremos muito e queremos depressa.

É Preciso fazer pausa. Ou melhor play.
Ma fleur, os círculos de sombra na parede nua, e a chuva a tocar na janela. Triplamente hipnotizante.

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