domingo, outubro 17, 2010

hoje sinto-me assim

sábado, outubro 16, 2010

foto ff

"«Shakespeare deve ter viajado de comboio, pelo menos em sonhos (...)». «(…)Referia-se, sem dúvida, aos sensacionais livros de cordel tão característicos do caminho-de-ferro. Se o vapor alguma coisa fez, foi, pelo menos, criar um género de literatura inglesa totalmente novo.». «(...) Referia-me a essa literatura de cordel, aos pequenos romances policiais em que o assassino surge na página 15 e o casamento na página 40. São romances que se devem, certamente, ao vapor, não? E Quando viajamos a electricidade - se me atrever a desenvolver a sua teoria - teremos resumidos folhetos em vez de literatura de cordel, e o assassino e o casamento vão aparecer na mesma página.»" (Lewis Carrol in “Sylvie e Bruno”, pág. 65-67)

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segunda-feira, junho 07, 2010

foto ff

(clique em cima para ouvir)

"... Lina chegou e dispôs jóias e comida na sepultura, juntamente com folhas aromáticas, e disse-lhe que os rapazes e Patrician eram agora estrelas ou qualquer outra coisa igualmente adorável: pássaros amarelos e verdes, raposas brincalhonas ou as nuvens matizadas de tons rosa que se juntavam na fímbria do céu. Coisas pagãs, sem dúvida, mas mais apaziguadoras que as preces Aceito-e-ver-te-ei-no-Dia-do-Juízo-Final que tinham ensinado a Rebekka e ela ouvira repetidas pela congregação baptista. Houvera, em tempos, um dia de Verão em que ela se sentara defronte da casa a costurar e a falar de modo profano, enquanto Lina mexia roupa que fervia numa caldeira ao seu lado.
- Não creio que Deus saiba quem somos. Penso que ele gostaria de nós, se nos conhecesse, mas não creio que saiba de nós.
- Mas Ele criou-nos, Miss. Não é verdade?
- Criou. Mas também fez as caudas dos pavões. Isso deve ter sido mais difícil. 
- Oh, mas, Miss, nós cantamos e falamos. Os pavões não.
- Nós precisamos de cantar e falar. Os pavões não precisam. O que mais temos nós?
- Pensamentos. Mãos para fazer coisas.
- Pois sim, muito bem. Mas isso diz-nos respeito a nós. Não a Deus. Ele está a fazer outra coisa qualquer no mundo. Nós não estamos no seu pensamento.
- O que faz Ele, então, se não olha por nós?
- Sabe Deus." in A Dádiva de Toni Morrison

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quinta-feira, abril 29, 2010


foto ff (from TV in still)

"O meu coração transborda de felicidade, Arkacha! Eu não mereço tanta ventura! Sou o primeiro a reconhecê-lo. Que fiz eu para merecê-la - exclamou com voz em que vibravam soluços reprimidos -, que boas acções pratiquei?, diz-me. Repara, quantos desgraçados há neste mundo, quantas lágrimas, quantas penas, quantos dias sem sol! E eu, em troca... Eu, em troca, tenho o amor de uma mulher como essa... Tu hás-de vê-la e hás-de conhecer o seu nobre coração."
"(...)"
"Ele ficou aí sentado e acabrunhado, parecendo enfronhado em profundas meditações. Cumprimentava, com acenos de cabeça, todos os conhecidos, como a despedir-se deles. Olhava para a porta, a todo o momento, como se esperasse que lhe dissessem: «É agora!» À sua volta formara-se um círculo apertado; todos falavam e meneavam a cabeça. Muitos estavam admirados com o que acabavam de ouvir; uns comentavam o caso acaloradamente, outros exprimiam a sua compaixão por Vássia e elogiavam as suas qualidade de homem modesto e sossegado, que dava tão grandes esperanças. Gabavam a sua aplicação e a sua ânsia de saber e de estudar." F. Dostoiévski in Coração Débil

o fantástico mundo de Dostoiévski, do amor, da culpa e a loucura, tecidos de forma excessivamente primorosa e meticulosamente profética da antevisão da catástrofe, do declínio do indivíduo, ou da rendição da consciência aos Hypnos e seu filho Morpheus e sua mãe Pasithea… divino e trágico

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quinta-feira, janeiro 28, 2010

"UM HOMEM QUE ESCREVE

Um homem tinha escrito cabeça na testa e mão em cada mão, e em cada pé.
O pai dele disse, pára pára pára, pois a redundância é como ter dois filhos, o que é ter dois filhos a mais, como logo à partida que é já um filho de mais.

O homem disse, posso escrever pai no pai?
Sim, disse o pai, porque um pai está cansado de suportar tudo sozinho.

A mãe disse; vou-me embora se todas essas pessoas vierem jantar.
Mas o homem escreveu jantar em todo o jantar.

Quando o jantar acabou o pai disse ao filho, poderás escrever arroto no meu arroto?

O homem disse, hei-de escrever Deus abençoe todos em Deus." Russell Edson O túnel p.17

...porque um corpo quer aprender a falar a língua dos corpos...


foto ff

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segunda-feira, novembro 16, 2009

era uma vez...

foto ff


"Tinha quatro ou cinco anos e queria ver crescer as árvores. Então, ela, pelos vistos ainda mais imaginosa que o filho, explicou-lhe que as árvores são muito tímidas, só crescem quando não estamos a olhar para elas, É que lhes dá vergonha, disse-lhe um dia. Por alguns instantes caim permaneceu calado, a pensar, mas logo respondeu, Então não olhes, mãe, de mim não têm vergonha, estão habituadas. Prevendo já o que viria depois, a mãe apartou o olhar e imediatamente a voz do filho soou triunfal, Agora mesmo cresceu, agora mesmo cresceu, eu bem te tinha dito que não olhasses" José Saramago - Caim, pp.41-42 Editorial Caminho, 2009José Saramago - Caim, pp.41-42 Editorial Caminho, 2009

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sexta-feira, novembro 06, 2009



INAUGURAÇÃO SÁBADO 7/11
PROGRAMA

19H > JANTAR HOTEL BRAGANÇA

22:15 > ESTAÇÃO DE COIMBRA A > Concentração

22:22 > partida > CITAC & MANÉS

22:30 > chegada ESTAÇÃO DE COIMBRA B
Colectivo ERRORISTA > instalação sonora
MIGUEL JANUÁRIO > graffiti [live act]


23:00 – 04:00 > ESTAÇÃO DE COIMBRA B > OFICINAS - CP

23:00
JOSEF B + QIP > massa sonora > execução mecânica aleatória
JOÃO MARQUES FERNANDES/IRENE GONÇALVES> performance
JOÃO VAZ > textos sonoros
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOÃO VASCO PAIVA > vídeo

24:00
BOIALVO [Live act] + LISBON WINTER BLUES [VJ set]

0:30
QUARTETO PAULO PIMENTEL [Jazz]

1:30
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOSEF B + QIP
MAU FEITIO> uma muda de roupa

2:00
LAETITIA MORAIS [Visuais] + BOIALVO [Live act]

2:30 - 4:00
AFONSO MACEDO [DJ Set]

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sábado, 7/11/2009, 22:15 Estação Coimbra A - 22:45 Estação Coimbra B - 23:00-4:00 Oficinas da CP



O viajante

O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.

A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.

O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.

O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…

Francisco Feio

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terça-feira, abril 07, 2009

foto ff


"À preguiça pode dar-nos o tempo necessário à reflexão. É nesse sentido que falo da preguiça. A maior parte das pessoas não tem tempo para reflectir. Mas uma vez doentes, as pessoas dão um passo decisivo no sentido da reflexão, porque por fim desejam a querem pensar. Isto é duma simplicidade infantil." Albert Cossery (entrevista in Mendigos e Altivos)

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quarta-feira, janeiro 14, 2009

para os tapores

meu comentário aos pescadas, quando alguém se rebelou contra a sugestão de ler o livro de Ítalo Calvino " Se numa noite de inverno um viajante",só porque lho sugeriram e porque tem muitas leituras entre mãos:

"olhem lá agora é aquela altura em que nós espraiamos as leituras que temos vindo a fazer (como os interessantes tapores têm feito - http://tapornumporco.blogspot.com)? também contam flyers, letras gordas das revistas nas caixas de supermercado, as páginas amarelas, as etiquetas da roupa, as advertências nos produtos de higiene, etc. e tal? Digam lá, para eu começar a preparar o meu rol de leituras..."


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sexta-feira, novembro 21, 2008

Princípios (…) fins.

foto ff

"Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. às vezes, mal apagava a vela, os meus olhos fechavam-se tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: «Adormeço». (...) Não eram mais que um delgada fatia no meio das impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas, são fugitivos, infelizmente, como os anos." Em Busca do Tempo Perdido 1 no caminho de Swann, Marcel Proust

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domingo, novembro 16, 2008

Princípios (…) fins.

foto ff


"No dia em que vendeu a burra, regressou a pé para o monte e acreditou que nunca mais voltaria à vila. Tinha mais de oitenta anos e essa é uma idade de decisões para toda a vida. (...) A minha pele soltou-se da minha carne. E se eu dissesse agora uma palavra, sei que a minha voz seria feita de ferro." Cal, José Luís Peixoto

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terça-feira, junho 03, 2008

foto ff

"(...)

Si para todo hay término y hay tasa
Y última vez y nunca más y olvido
Quién nos dirá de quién, en esta casa,
Sin saberlo, nos hemos despedido?

Tras el cristal ya gris la noche cesa
Y del alto de libros que una trunca
Sombra dilata por la vaga mesa,
Alguno habrá que no leeremos nunca.

Hay en el Sur más que un portón gastado
Con sus jarrones de mampostería
Y tunas, que a mi paso está vedado
Como se fuera una litografia.

(...)" Jorge Luis Borges

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sexta-feira, março 21, 2008

foto ff

“A mulher é um animal imperfeito, apaixonado por mil paixões desagradáveis e abomináveis para serem recordadas e não para se raciocinar sobre elas: porque se os homens olhassem como deveriam, não se dirigiam a elas de outro modo nem com outro deleite ou apetite, que não fosse aquele que apresenta oportunidades naturais e inevitáveis; e alijando o peso supérfluo, fugiriam dos lugares delas como também elas fazem com passo apressado relativamente a eles।” Giovanni Boccacio (Corbaccio, 1363-1366) in História do Feio (direcção de Umberto Eco, 2007, p.164)

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quinta-feira, julho 05, 2007

sala de leitura

foto ff

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quarta-feira, junho 13, 2007

gosto

foto ff

Gosto de Saramago, pronto, gosto…está dito!
Gosto porque sim.
Não porque se disse isto ou aquilo dele, por que este ou aqueloutro escreveu sobre ele (do que sinceramente pouco ouvi, li ou assisti).
Não gosto mais ou menos dele do que de outros, simplesmente por que li menos deles ou porque os li com boa ou má disposição, ou porque sou esta e não aquela.
Sou esta que ao lê-lo se vê encomendada para uma anamnese de cores, forma, cheiros e sons que também lhe povoaram a infância, se vê cúmplice de primores infantis e juvenis de cuidados nas afirmações sobre verdades mutantes e metamorfoseadas; de raciocínios lógicos que assaltam dogmas religiosos e culturais de forma incontrolável porque não fazem sentido, dentro de um outro sentido que se instala nos meandros neuronais como um visitante que vem para ficar sem data de partida, fazendo redemoinhos, loupings, cambalhotas, reviravoltas, flick e flacks, mortais de frente e detrás, em relação a muito daquilo que é dito, feito, escrito pelos que me rodeavam e ainda rodeiam; de fantasias que não coincidentes têm dentro de si a mesma paixão, a mesma ternura e aquele entusiasmo de quem sorve cada sopro de brisa, cada palavra lida ou falada, para depois analisar como um cirurgião com um bisturi, por que faz parte desse todo que se quer conquistar que é a natureza, onde a conquista de si mesmo é inevitavelmente latente.
Gosto sem pretensões nem comparações, porque ele foi dotado da capacidade de com a simplicidade falar sobre o que se nos assume como complexo e emaranhado, porque é memória com vertigens, porque é fantasia em litigio, porque é sonho/desejo e medo em conflito, o que dentro de mim fica difícil de esmiuçar, de pintar com letras ou sons.
Gosto pela simplicidade
Gosto pela generosidade da partilha do seu sentir
Gosto porque me faz sentir mais próxima de mim, porque me permite ser autenticamente eu própria.
Gosto.


(palavras que se me soltaram durante a leitura de "As Pequenas Memórias" do autor, oferecido no Natal pela minha querida mana)

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segunda-feira, abril 23, 2007

livros, meus...

foto ff

...porque os consumi, consumo e consumirei na minha vampiresca sede do que outros generosamente ofertam, sejam os seus demónios ou anjos, fantamas, monstros ou fadas que os assaltam

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